Uma combinação de ciclone extratropical, frente fria, calor e grande disponibilidade de umidade mantém o Sul do Brasil sob risco de tempo severo nesta segunda-feira (21). O cenário favorece chuva intensa, granizo e vendavais, com rajadas capazes de superar 90 km/h em algumas áreas. Meteorologistas também apontam condições atmosféricas favoráveis à ocorrência isolada de fenômenos mais extremos, como microexplosões e tornados.
Os efeitos já deixaram de ser apenas uma previsão. No Rio Grande do Sul, temporais durante a madrugada provocaram ventos acima de 100 km/h, quedas de árvores, destelhamentos, interrupções no fornecimento de energia e bloqueios em rodovias. Cerca de 890 mil clientes das concessionárias de energia estavam sem luz no início da manhã, segundo balanços divulgados pelas empresas.
E a preocupação não termina no território gaúcho. A frente fria avança sobre Santa Catarina e Paraná ao longo desta segunda, mantendo condições para novas tempestades até a madrugada de terça-feira (22). Em Santa Catarina, o risco para temporais é considerado alto, enquanto áreas do oeste apresentam ambiente especialmente favorável a tempestades severas.
O que está provocando as tempestades no Sul?
O episódio envolve mais do que simplesmente a passagem de um ciclone.
Um sistema de baixa pressão e uma frente fria encontraram uma atmosfera abastecida por ar quente e úmido transportado das regiões mais ao norte da América do Sul. Quando a frente avança, esse ar é forçado rapidamente para níveis mais altos da atmosfera.
É justamente essa combinação que ajuda a formar grandes nuvens de tempestade.
A MetSul explica que uma intensa corrente de vento em baixos níveis transporta calor e umidade do Norte da Argentina, Paraguai e Centro-Oeste para o Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo, o avanço do ar mais frio cria condições para uma linha de instabilidade organizada.
O resultado pode ser uma sequência rápida de temporais acompanhados por descargas elétricas, granizo e rajadas muito intensas.
Rio Grande do Sul já registra ventos acima de 100 km/h
O Rio Grande do Sul foi o primeiro estado a sentir os efeitos mais intensos da mudança no tempo.
A Defesa Civil estadual já havia alertado que rajadas poderiam superar 100 km/h, principalmente durante a madrugada desta segunda-feira. Também havia previsão de granizo, inclusive de tamanho significativo, e chuva volumosa.
A previsão se confirmou em vários pontos.
Em Porto Alegre, uma estação no Clube Jangadeiros registrou rajada de 106 km/h durante a passagem da linha de instabilidade. Outras estações da capital também registraram velocidades próximas de 90 km/h.
No município de Rio Grande, a Defesa Civil municipal informou rajada de 113,7 km/h. Árvores e postes caíram, imóveis foram destelhados e redes de energia sofreram danos.
O vento também provocou transtornos em Pelotas, Porto Alegre e diferentes municípios das regiões Sul, Central e Metropolitana.
Chuva pode superar 200 mm em pontos do RS
Depois do vendaval da madrugada, a chuva passou a ser outro motivo importante de preocupação.
Em atualização publicada às 13h41 desta segunda-feira, a Defesa Civil do Rio Grande do Sul informou que áreas do Norte, dos Vales e da Serra ainda poderiam receber entre 50 e 80 milímetros em 12 horas, além dos 100 a 150 mm já registrados em determinados locais.
Com isso, o acumulado de todo o episódio pode ultrapassar 200 mm em alguns pontos.
Volumes dessa magnitude em poucas horas aumentam o risco de enxurradas, alagamentos, movimentos de massa e elevação rápida dos rios.
O Cemaden classificou como alta a possibilidade de eventos hidrológicos nas regiões intermediárias de Porto Alegre e Caxias do Sul, além de apontar risco de deslizamentos em áreas suscetíveis.
Rios também entram em nível de atenção
A Defesa Civil gaúcha informou que rios e arroios começaram a responder aos grandes acumulados.
Entre os cursos d’água acompanhados com risco de inundação aparecem trechos dos rios Jacuí, Taquari, Caí, Paranhana e Sinos. O cenário pode mudar rapidamente conforme a água das cabeceiras chega às regiões mais baixas das bacias.
Por isso, mesmo localidades onde a chuva diminuir ainda podem enfrentar problemas posteriormente.
Santa Catarina entra no período de maior atenção
À medida que a frente fria avança, o foco das tempestades se desloca para Santa Catarina.
A Defesa Civil catarinense prevê temporais acompanhados de chuva intensa, raios, fortes rajadas de vento e eventual granizo. As instabilidades avançam pelo estado durante esta segunda-feira e ganham força especialmente entre a tarde e a noite.
Segundo a Epagri/Ciram, há risco alto de temporais em Santa Catarina e possibilidade de tempestades severas localizadas, principalmente no Oeste.
As rajadas podem alcançar entre 60 e 100 km/h em determinados momentos.
Além do vento, os acumulados de chuva também chamam atenção. O aviso meteorológico para segunda e terça-feira indicava totais entre 80 e 100 mm em várias áreas, com possibilidade de pontos próximos ou superiores a 150 mm.
O risco envolve destelhamentos, danos à rede elétrica, queda de galhos e árvores, alagamentos, enxurradas e deslizamentos pontuais.
Paraná também pode ter temporais fortes
O Paraná entra na rota da frente fria principalmente entre a tarde e a noite desta segunda-feira.
O ambiente fica mais favorável à formação de tempestades especialmente nas regiões Oeste e Noroeste, onde o calor registrado antes da chegada da frente fornece energia adicional às nuvens.
Boletim da Defesa Civil paranaense apontou risco elevado de rajadas acima de 70 km/h e queda de granizo nessas áreas. A instabilidade pode continuar durante a madrugada de terça-feira, sobretudo nas regiões centrais e no norte do estado.
Depois, a tendência é de redução do risco de temporais e avanço de uma massa de ar mais frio.
Existe realmente risco de tornado?
Sim, mas é importante compreender o que esse alerta significa.
A presença de condições atmosféricas favoráveis não significa que um tornado obrigatoriamente ocorrerá, muito menos que todas as cidades do Sul estão sujeitas ao mesmo nível de risco.
A MetSul avaliou que o ambiente meteorológico apresentava condições propícias para tempestades capazes de desenvolver rotação, especialmente no Rio Grande do Sul. A combinação de forte instabilidade e mudanças de direção e velocidade do vento conforme a altitude pode favorecer supercélulas — tempestades organizadas que, em situações específicas, conseguem produzir tornados.
Até o início da tarde desta segunda-feira, entretanto, não havia confirmação oficial de tornado no Rio Grande do Sul durante este episódio. Uma rotação observada em uma nuvem em Ernestina chegou a causar preocupação, mas não havia evidência de que um tornado tivesse tocado o solo.
Esse cuidado é importante porque imagens de nuvens girando, vendavais ou grandes danos não são suficientes, por si só, para confirmar a passagem de um tornado.
O que é uma microexplosão?
Outro fenômeno citado nas previsões é a chamada microexplosão atmosférica.
Ela ocorre quando uma forte corrente de ar desce rapidamente de uma nuvem de tempestade e atinge a superfície. Ao chegar ao solo, o vento se espalha horizontalmente em várias direções.
As rajadas podem ser extremamente fortes e produzir danos semelhantes aos observados em um tornado.
A diferença principal está na dinâmica do vento: no tornado existe uma circulação giratória organizada; na microexplosão, o vento é provocado principalmente pela intensa corrente descendente.
É justamente por isso que apenas uma análise posterior dos estragos, imagens de radar e outros registros permite determinar com segurança qual fenômeno ocorreu.
Granizo pode acompanhar as tempestades
A queda de granizo também faz parte do cenário de risco.
Em tempestades muito desenvolvidas verticalmente, fortes correntes ascendentes conseguem carregar gotas de água para regiões extremamente frias da nuvem. Elas congelam e podem passar diversas vezes por esse processo antes de ficarem pesadas demais e caírem.
Quanto mais intensa a tempestade, maior pode ser a capacidade da corrente ascendente de manter pedras de gelo dentro da nuvem por mais tempo.
No Rio Grande do Sul, a Defesa Civil alertou inclusive para possibilidade de granizo de tamanho significativo. Já em Santa Catarina, a Epagri/Ciram considera severa uma tempestade que produza granizo com 2,5 centímetros ou mais de diâmetro, vento acima de 90 km/h ou tornado/tromba d’água.
Por que o ciclone não precisa passar sobre uma cidade para causar estragos?
Existe uma confusão frequente quando se fala em ciclones extratropicais.
Os maiores danos nem sempre acontecem exatamente onde está localizado o centro do ciclone.
O sistema de baixa pressão interfere na circulação atmosférica de uma área enorme e pode organizar frentes frias, corredores de vento e grandes linhas de tempestade centenas de quilômetros distantes de seu núcleo.
Neste episódio, inclusive, parte importante dos danos registrados no Rio Grande do Sul está associada à linha de instabilidade e à frente fria, e não simplesmente à passagem física do centro do ciclone sobre as cidades.
Isso explica por que Santa Catarina e Paraná podem enfrentar temporais mesmo com o centro do sistema distante.
Frente fria avança e leva instabilidade para outras regiões
Depois de atravessar o Sul, a frente fria começa a interferir também no tempo de áreas do Sudeste e Centro-Oeste.
A previsão indica possibilidade de temporais em São Paulo e Mato Grosso do Sul, além de instabilidades mais isoladas em outras áreas próximas à passagem do sistema.
Em São Paulo, a mudança também deve provocar uma queda significativa da temperatura depois do calor registrado nesta segunda-feira.
Isso acontecerá justamente durante a transição astronômica do inverno para a primavera, que começa às 21h05 de terça-feira (22).
Ou seja, apesar da chegada da primavera, algumas áreas devem sentir inicialmente temperaturas mais baixas depois da passagem da frente fria.
Quando o tempo começa a melhorar?
A resposta depende do estado.
No Rio Grande do Sul, a frente fria avança gradualmente para norte, mas os rios ainda podem continuar subindo mesmo depois da redução da chuva.
Em Santa Catarina, temporais isolados ainda são previstos durante a madrugada e o começo da manhã de terça-feira. No norte do estado, a chuva pode permanecer por mais algumas horas antes da melhora.
No Paraná, o risco também diminui ao longo de terça-feira, enquanto uma massa de ar mais frio começa a avançar.
O afastamento da frente fria, porém, não encerra imediatamente todos os perigos. Áreas encharcadas continuam vulneráveis a deslizamentos, enquanto rios podem atingir seus picos horas depois do fim da chuva.
O que fazer durante tempestades com vento e granizo?
A recomendação das Defesas Civis é procurar abrigo em uma construção segura e acompanhar os avisos emitidos para cada município.
Durante os períodos de maior instabilidade:
- evite permanecer perto de árvores, postes, muros e placas;
- não tente atravessar ruas ou estradas alagadas;
- mantenha distância de janelas durante vendavais e granizo;
- não permaneça em áreas abertas durante tempestades com raios;
- retire aparelhos da tomada quando houver risco para a rede elétrica, desde que seja seguro fazê-lo;
- acompanhe alertas da Defesa Civil e saia imediatamente de áreas de risco quando houver orientação oficial.
Em situações de emergência, o Corpo de Bombeiros pode ser acionado pelo 193 e a Defesa Civil pelo 199.
Risco de tornado exige atenção, mas não pânico
O episódio desta segunda-feira reúne ingredientes capazes de produzir tempestades muito intensas, e os danos registrados no Rio Grande do Sul mostram que a ameaça de vendavais não é apenas teórica.
Ao mesmo tempo, o risco precisa ser interpretado corretamente. A possibilidade de tornado é localizada e não representa uma previsão de que o fenômeno ocorrerá em todas as regiões sob alerta.
Para a maior parte da população, os perigos mais prováveis continuam sendo chuva intensa, alagamentos, queda de árvores, granizo, descargas elétricas e rajadas fortes.
Nas próximas horas, a atenção se desloca principalmente para Santa Catarina e Paraná, enquanto o Rio Grande do Sul acompanha a evolução de rios, áreas inundadas e os efeitos dos grandes volumes de chuva já registrados.
Imagem de referência
A imagem abaixo é ilustrativa e de arquivo, mostrando a estrutura típica de um ciclone extratropical próximo ao Sul do Brasil; não corresponde ao sistema de 21 de setembro de 2026.
Perguntas frequentes
Quais estados estão sendo afetados pelo ciclone?
Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná estão sob influência do sistema e da frente fria associada. O Rio Grande do Sul registrou os primeiros impactos mais severos, enquanto as instabilidades avançam por Santa Catarina e Paraná.
Há risco de tornado no Sul do Brasil?
Meteorologistas apontaram condições favoráveis à ocorrência isolada de tornados, principalmente em tempestades capazes de desenvolver rotação. Isso não significa que tornados necessariamente ocorrerão nem que todo o Sul esteja sob o mesmo risco.
Os ventos podem passar de 100 km/h?
Sim. Rajadas acima de 100 km/h já foram registradas no Rio Grande do Sul. Em Santa Catarina, há previsão de rajadas entre 60 e 100 km/h em áreas afetadas pelas tempestades.
Até quando duram as tempestades?
No Rio Grande do Sul, o sistema avança para norte nesta segunda-feira. Em Santa Catarina e Paraná, ainda podem ocorrer temporais durante a noite e a madrugada de terça-feira (22), com redução gradual da instabilidade depois disso.
O que é um ciclone extratropical?
É uma área de baixa pressão formada principalmente em latitudes médias, associada ao contraste entre massas de ar. O sistema pode provocar ventos fortes e organizar frentes frias e áreas extensas de chuva e tempestades.
O ciclone também pode afetar São Paulo?
A frente fria associada ao sistema avança em direção ao Sudeste, aumentando a possibilidade de chuva, vento e queda de temperatura em São Paulo entre segunda e terça-feira.




