Uma pequena ameba encontrada em águas geotérmicas da Califórnia acaba de empurrar para cima um limite que os cientistas acreditavam conhecer. Batizada de Incendiamoeba cascadensis, a chamada “ameba do fogo” consegue se reproduzir a 63°C, continua se movimentando em temperaturas ainda maiores e chegou a se recuperar depois de permanecer por cinco minutos a impressionantes 70°C.
O resultado chamou a atenção da Nasa porque não se trata de uma bactéria ou arqueia, grupos já famosos pela resistência a condições extremas. A Incendiamoeba é um organismo eucarionte, isto é, possui uma célula com núcleo e estruturas internas mais complexas — características compartilhadas, em escala muito maior, por plantas, animais e pelos seres humanos.
Até agora, acreditava-se que esse tipo de organização celular impunha uma barreira muito mais rígida contra o calor.
O estudo, apoiado pela Nasa e por outras instituições científicas e publicado na revista Cell em 22 de setembro de 2026, estabelece um novo recorde conhecido para a reprodução de organismos eucariontes em altas temperaturas.
E o mais intrigante é que os cientistas podem ainda não ter encontrado o verdadeiro limite.
A “ameba do fogo” foi encontrada em uma região vulcânica
A história começou no Parque Nacional Vulcânico Lassen, no norte da Califórnia, nos Estados Unidos.
O local está situado em uma região de intensa atividade geotérmica, com fontes quentes, áreas de vapor e águas naturalmente aquecidas pelo calor do interior da Terra.
Entre 2023 e 2025, pesquisadores coletaram amostras em diferentes pontos de um afluente do Hot Springs Creek. A nova ameba apareceu em 14 dos 20 locais geotérmicos analisados, onde as temperaturas variavam aproximadamente entre 49°C e 65°C.
Foi nesse ambiente que os cientistas identificaram uma forma de vida até então desconhecida.
O nome Incendiamoeba cascadensis faz referência justamente à sua característica mais extraordinária: trata-se, em tradução aproximada, de uma “ameba de fogo das Cascades”, cadeia vulcânica da qual o Lassen faz parte.
A surpresa começou quando a temperatura chegou aos 60°C
Os pesquisadores não se limitaram a observar a ameba em seu ambiente natural.
Ela foi levada ao laboratório e submetida a uma sequência de experimentos para determinar até onde sua célula conseguiria continuar funcionando.
A temperatura de 60°C era particularmente importante.
Antes da descoberta da Incendiamoeba, esse era aproximadamente o maior limite conhecido no qual organismos eucariontes conseguiam crescer e se reproduzir. Algumas espécies de fungos e algas vermelhas chegavam a essa faixa.
A ameba, porém, não demonstrou dificuldade.
Segundo os pesquisadores, ela cresceu de maneira robusta a 60°C.
Então a temperatura continuou subindo.
A 63°C, ela ainda conseguia se reproduzir
O resultado que estabeleceu oficialmente o novo recorde apareceu a 63°C.
Mesmo submetidas a essa temperatura, as células da Incendiamoeba continuaram se dividindo.
Isso significa que elas não estavam apenas resistindo ao calor por alguns minutos. O organismo conseguia realizar um dos processos fundamentais da vida: reproduzir-se por divisão celular.
Os pesquisadores acompanharam seu crescimento em experimentos realizados em 17 temperaturas diferentes, entre 30°C e 64°C.
As culturas foram monitoradas durante sete dias.
O resultado mostrou uma faixa de temperatura bastante incomum: a ameba começa a crescer a aproximadamente 42°C e apresenta seu melhor desempenho entre 55°C e 57°C. A 40°C ou menos, não houve crescimento observado no experimento.
Ou seja, temperaturas que seriam extremamente perigosas para inúmeros organismos fazem parte das condições preferidas dessa espécie.
Aos 64°C, a ameba para de se reproduzir — mas continua andando
Existe uma diferença importante entre estar vivo e conseguir se reproduzir.
A aproximadamente 64°C, a divisão celular deixa de ocorrer. Ainda assim, imagens produzidas pelos pesquisadores mostraram que a Incendiamoeba continuava se movimentando.
Ela ainda conseguia alterar seu formato e se deslocar em busca de alimento.
Esse comportamento também estabeleceu um novo parâmetro para organismos eucariontes.
Para os pesquisadores, não basta descobrir a temperatura máxima em que um organismo permanece fisicamente presente. É preciso separar pelo menos três níveis: reprodução, atividade metabólica e sobrevivência.
A Incendiamoeba apresentou resultados diferentes em cada um deles.
Então os cientistas elevaram a temperatura para 66°C
Quando o laboratório chegou a 66°C, a situação começou a mudar.
As células passaram a assumir uma forma mais arredondada, mas algumas ainda permaneciam parcialmente ativas. Os pesquisadores acreditam que elas começavam a entrar em um estado de proteção semelhante ao encistamento.
Esse mecanismo é utilizado por diferentes organismos microscópicos para suportar períodos desfavoráveis.
Em vez de continuar funcionando normalmente, a célula reduz suas atividades e forma estruturas de proteção.
É como se entrasse temporariamente em um “modo de sobrevivência”.
Mas os pesquisadores ainda não haviam chegado ao teste mais extremo.
Cinco minutos a 70°C — e ela voltou à atividade
As células foram então submetidas a 70°C durante cinco minutos.
Nessa temperatura, a Incendiamoeba entrou em um estado de cisto.
Seria razoável imaginar que o calor tivesse provocado danos irreversíveis. Afinal, temperaturas elevadas podem deformar proteínas, destruir membranas e danificar moléculas essenciais para uma célula.
Os cientistas reduziram novamente a temperatura para cerca de 60°C.
E a ameba se recuperou.
A capacidade de voltar à atividade após uma exposição de cinco minutos a 70°C surpreendeu a equipe e mostrou que seus mecanismos de proteção contra o calor são muito mais eficientes do que se esperava encontrar em uma célula eucariótica.
E o que aconteceu quando chegaram aos 80°C?
Aqui existe uma distinção importante.
A Incendiamoeba não demonstrou sobreviver e se recuperar a 80°C.
Quando os pesquisadores elevaram a temperatura para 80°C, as células não conseguiram retornar ao funcionamento normal depois que o ambiente foi resfriado. A própria Nasa descreve os 80°C como uma temperatura alta demais para que a ameba conseguisse se recuperar.
Portanto, os resultados podem ser resumidos assim:
- 55°C a 57°C: faixa ótima de crescimento;
- 60°C: cresce normalmente;
- 63°C: ainda consegue se reproduzir;
- 64°C: ainda consegue se movimentar;
- 66°C: permanece parcialmente ativa;
- 70°C: forma cisto, mas consegue se recuperar após cinco minutos;
- 80°C: não consegue se recuperar.
É justamente essa diferença entre reprodução, atividade e recuperação que torna o experimento relevante.
Por que 63°C é um número tão importante?
Durante anos, cientistas consideraram que havia uma barreira física próxima dessa temperatura para organismos eucariontes.
O motivo está na própria complexidade da célula.
Uma bactéria possui uma estrutura relativamente simples. Já uma célula eucariótica possui núcleo, mitocôndrias, retículo endoplasmático e outras estruturas delimitadas por membranas.
Essas membranas precisam permanecer estáveis para que a célula continue funcionando.
Uma hipótese científica sugeria que temperaturas acima de aproximadamente 62°C poderiam comprometer a estabilidade das membranas das organelas a ponto de tornar impossível a reprodução de uma célula eucariótica.
A Incendiamoeba ultrapassou justamente essa barreira.
Ela demonstrou divisão celular a 63°C.
É uma diferença de poucos graus no termômetro, mas cientificamente representa a quebra de um limite biológico considerado importante.
Como a ameba consegue não “cozinhar”?
O desafio do calor extremo para uma célula é gigantesco.
Proteínas possuem formas tridimensionais muito específicas. Quando a temperatura sobe demais, elas podem perder essa estrutura — fenômeno chamado de desnaturação.
Sem a forma correta, muitas proteínas deixam de funcionar.
Membranas também podem se tornar instáveis. O DNA pode sofrer danos e diversos processos químicos que mantêm a célula viva começam a falhar.
Para entender como a Incendiamoeba evita esse colapso, os cientistas sequenciaram seu genoma e analisaram quais genes se tornavam mais ativos em diferentes temperaturas.
Os resultados revelaram uma série de adaptações.
A resposta pode estar escondida nas proteínas e no DNA
A análise genética identificou uma concentração maior de genes relacionados à proteostase, processo que ajuda a manter as proteínas corretamente estruturadas e funcionando.
Também foram encontrados mecanismos associados à estabilidade e proteção do genoma.
Quando a temperatura aumentava, alguns genes ligados à manutenção do dobramento correto das proteínas passavam a ser mais expressos.
Outro detalhe chamou atenção.
Algumas proteínas da Incendiamoeba possuem uma carga positiva elevada em sua superfície. Os pesquisadores acreditam que isso pode contribuir para que elas permaneçam estáveis sob temperaturas extremas.
Características semelhantes já foram identificadas em proteínas de bactérias e arqueias termófilas.
Isso sugere que formas de vida muito diferentes podem ter desenvolvido estratégias semelhantes para solucionar o mesmo problema: evitar que suas estruturas celulares entrem em colapso devido ao calor.
O que exatamente é um organismo termófilo?
Organismos capazes de crescer em temperaturas muito elevadas são conhecidos como termófilos.
A palavra significa, essencialmente, “amante do calor”.
De acordo com a descrição usada pela Nasa, organismos desse grupo apresentam crescimento em temperaturas acima de aproximadamente 45°C.
Eles são encontrados em lugares que pareceriam hostis para boa parte da vida conhecida: fontes termais, regiões vulcânicas e sistemas hidrotermais no fundo dos oceanos.
Bactérias e arqueias são os exemplos mais conhecidos.
Mas a Incendiamoeba mostra que células eucarióticas complexas também podem ocupar ambientes muito mais quentes do que se imaginava.
Ainda existem organismos que suportam temperaturas muito maiores
Isso não significa que a “ameba do fogo” seja o organismo mais resistente ao calor existente na Terra.
Quando entram em cena bactérias e, principalmente, arqueias, os limites ficam muito mais extremos.
O estudo cita a arqueia Methanopyrus kandleri, capaz de crescer em temperaturas de até aproximadamente 122°C em condições específicas.
Entre as bactérias, há organismos que conseguem crescer perto de 100°C.
A importância da nova descoberta está em outro ponto.
A Incendiamoeba estabeleceu o recorde entre os eucariontes, grupo biologicamente mais complexo que inclui desde amebas e fungos até plantas e animais.
É isso que torna os 63°C tão relevantes.
Existem outras “amebas do fogo” escondidas pelo planeta?
Provavelmente.
Os pesquisadores analisaram dados genéticos obtidos anteriormente em ambientes geotérmicos de diferentes partes do mundo.
Encontraram sequências semelhantes às da Incendiamoeba em locais como o Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, e regiões geotérmicas da Nova Zelândia.
Isso pode indicar que parentes dessa ameba estejam espalhados por outros ambientes extremos.
Se novas espécies forem encontradas, o recorde atual de 63°C talvez nem permaneça por muito tempo.
Os próprios pesquisadores afirmam que a descoberta questiona qual é, de fato, a temperatura máxima na qual uma célula eucariótica consegue completar sua reprodução.
A descoberta também interessa à busca por vida fora da Terra
É aqui que entra diretamente o interesse da Nasa.
A agência espacial participa e financia pesquisas sobre astrobiologia, área que tenta compreender como a vida surge, evolui e pode existir em diferentes ambientes do Universo.
Uma das maneiras de procurar vida extraterrestre é descobrir primeiro até onde a vida terrestre consegue chegar.
Quanto maior for a variedade de condições em que organismos conseguem sobreviver na Terra, maior também pode ser a variedade de ambientes considerados potencialmente habitáveis em outros mundos.
Extremófilos são particularmente interessantes porque vivem justamente nas fronteiras do que consideramos habitável.
Isso significa que poderia existir uma ameba em Marte?
Não é o que o estudo demonstra.
Encontrar um organismo resistente ao calor não significa automaticamente que ele conseguiria sobreviver em Marte ou em outro planeta.
Temperatura é apenas uma das variáveis necessárias para sustentar vida.
A própria equipe ressalta que a Incendiamoeba precisa de condições adequadas de água, acidez, oxigênio, pressão e alimento.
Ela também depende de outros organismos presentes em seu ecossistema.
Portanto, a descoberta não é evidência de vida extraterrestre.
O que ela faz é ampliar aquilo que os cientistas consideram biologicamente possível.
Se células complexas conseguem suportar ambientes terrestres que antes pareciam quentes demais, os critérios utilizados para avaliar a habitabilidade de outros ambientes também podem precisar ser revistos.
Descoberta pode ter aplicações além da astrobiologia
Existe ainda outro caminho aberto pela pesquisa.
Organismos extremófilos produzem moléculas capazes de continuar funcionando em condições nas quais proteínas comuns deixariam de ser estáveis.
Isso interessa diretamente à biotecnologia.
Proteínas e enzimas resistentes ao calor podem ter aplicações industriais, médicas e em biologia sintética. A Nasa destaca que moléculas produzidas por extremófilos já são estudadas justamente por suas propriedades incomuns.
O estudo da Incendiamoeba pode, portanto, revelar mecanismos úteis para produzir proteínas mais estáveis ou desenvolver enzimas capazes de funcionar em processos industriais realizados em altas temperaturas.
Ainda é cedo para saber quais aplicações práticas surgirão.
Mas seu genoma já oferece aos pesquisadores um conjunto completamente novo de estratégias biológicas para investigar.
Uma pequena ameba mudou uma antiga fronteira da vida
Durante muito tempo, aproximadamente 60°C parecia representar uma espécie de teto para a reprodução de organismos eucariontes.
A Incendiamoeba cascadensis mostrou que essa fronteira estava incompleta.
Ela cresce em temperaturas próximas às de uma água que causaria queimaduras graves em humanos, reproduz-se a 63°C, ainda se movimenta a 64°C e consegue se recuperar depois de alguns minutos a 70°C.
Somente quando os pesquisadores chegaram aos 80°C a recuperação deixou de ocorrer.
Mais importante do que o recorde, porém, é a pergunta aberta pela descoberta.
Se uma espécie desconhecida encontrada em algumas fontes geotérmicas conseguiu superar um limite que parecia estabelecido, quantos outros organismos capazes de desafiar as fronteiras conhecidas da vida ainda estão escondidos nos ambientes mais extremos da Terra?
Perguntas frequentes
O que é a “ameba do fogo”?
É o apelido dado à Incendiamoeba cascadensis, uma espécie de ameba termófila encontrada em águas geotérmicas do Parque Nacional Vulcânico Lassen, na Califórnia.
Qual é a temperatura máxima em que a ameba consegue se reproduzir?
Os experimentos mostraram reprodução celular até 63°C, um novo recorde conhecido para organismos eucariontes.
A ameba sobrevive a 70°C?
Os pesquisadores expuseram células a 70°C durante cinco minutos. Elas entraram em estado de proteção e conseguiram voltar à atividade quando a temperatura foi reduzida.
A ameba sobreviveu a 80°C?
Não nas condições testadas. Depois da exposição a 80°C, as células não conseguiram se recuperar, segundo a Nasa.
Qual é a temperatura ideal para a Incendiamoeba cascadensis?
Nos experimentos, seu crescimento ideal ocorreu aproximadamente entre 55°C e 57°C.
Por que a descoberta é importante?
Porque ultrapassa o limite anteriormente conhecido para reprodução de células eucarióticas em altas temperaturas e ajuda cientistas a compreender melhor as fronteiras ambientais nas quais formas de vida complexas podem existir.
O que essa descoberta tem a ver com a Nasa?
A pesquisa recebeu financiamento da Nasa e possui interesse para a astrobiologia, área que investiga os limites da vida na Terra para ajudar na busca por ambientes potencialmente habitáveis fora do planeta.
A descoberta prova que existe vida em outros planetas?
Não. Ela apenas demonstra que organismos complexos podem tolerar condições mais extremas do que se imaginava, ampliando o conhecimento utilizado na busca por vida fora da Terra.




